Ele reinava absoluto num balcão de aproximadamente 130cm de comprimento por uns 50cm de largura. É, acho que é isso. O seu poder não estava fundamentado em armas, prestígio ou dinheiro. Era simplesmente respeitado por sua estatura e por outro aspecto interessante: era o mais solicitado por todos que ali chegavam. Sim, sim, ele é o mais alto de todos os colegas de balcão. E, pelo menos aqui, tamanho é documento. Aliás, tal poder começa a ser enraizado nas caixas que os trazem até nós. Quanto maior o pacote, mais impressões positivas são geradas, resultando obviamente em sujeitos boquiabertos com tal novidade: um aparelho que faz brotar água gelada. Ali, instantâneo. Basta acoplar um capacete com nome de Galão e tudo tá resolvido. Calor, suor, tristeza, tudo se resolve quando a torneira direita é acionada. Em dias de sol, o que compreende uns 90% do ano onde moramos, ele é top número 1 nas paradas. Inclusive é necessária a troca constante do capacete, que volta e meia chega meio atrasado, deixando o nosso amigo um pouco sem juízo por um tempo - e sem atender prontamente aos que ali chegam.
O Sr. Gelágua é bastante querido e respeitado na vizinhaça, que nem é tão grande assim, é composta de uma pia redonda, um pacote de açúcar, um lixeiro verde, alguns painéis que chamam de "jogo americano" e uma simpática cafeteira. Três dias e pronto. Adquiriram pela vizinhança duas novidades interessantes: filtros, pó de café e mais e mais açúcar. Criado o hábito, a Dona Cafeteira abriu um próspero negócio. Por dia, no início, foram solicitadas 8 xícaras de café fresco. Na segunda semana, já eram contabilizadas em média 15 xícaras por dia. Um sucesso. Não se falava em outra coisa. Era café pra lá, café pra cá e um ou outro copo d'água para aliviar a sede pós cafeína. Ela, que com quase metade a menos da estatura do Sr. Gelágua, desbancara facilmente o seu reinado absoluto e até então ininterrupto.
A tristeza inicial do Sr. Gê foi transformada numa estratégia colossal: reuniu forças de sabe-se-lá-onde e contra-atacou. Não pelo bem geral da freguesia, mas pelo puro e honesto desejo de vingança. E assim o fez. Em vez de produzir flocos de neve frescos e misturá-los à água, passou a cuspir fogo na fonte. Sonhava que, dessa maneira, pudesse quem sabe atrair o interesse do pó de café e a partir de então produzir xícaras em quantidades industriais, visto que a estatura e o capacete seriam ótimos diferenciais na produção em larga escala. Imaginava o dia em que todos perceberiam o seu talento natural para fabricar xícaras de café deliciosas. Não funcionou. A freguesia ficou revoltada, ameaçaram um boicote ao Sr. Cabeça de Galão e aos poucos começaram a procurar uma velha conhecida revestida de um amarelo pastel e com pés de prata. A geladeira vintage, moradora da rua da frente e com capacidade de resfriamento um tanto quanto atrasada. Resolveu, então, que voltaria aos poucos à sua função inicial e acomodaria-se aos novos tempos, tal qual a sua prima VHS assistiu conformada o nascimento de um tal DVD, o que necessariamente não significou o fim da família das fitas. Havia esperança, sempre há.
Sem cartas na manga ou novas chances de sucesso, o nosso amigo em questão refletiu a respeito de toda a situação e deparou-se com algo fatal e um tanto óbvio. Permanecer onde estamos, fazendo aquilo que sabemos e com dedicação total a você - já dizia a sua loja-berçário- é fundamental para que o sucesso seja algo natural e recompensador. Nada de farsas, mentiras ou jogo sujo. À César o que é de César, à cafeteira o que é da cafeteira.
E ao Sr. Gelágua Cabeça de Galão, bem, todo os louros correspondentes ao morador mais alto do balcão.
O Sr. Gelágua é bastante querido e respeitado na vizinhaça, que nem é tão grande assim, é composta de uma pia redonda, um pacote de açúcar, um lixeiro verde, alguns painéis que chamam de "jogo americano" e uma simpática cafeteira. Três dias e pronto. Adquiriram pela vizinhança duas novidades interessantes: filtros, pó de café e mais e mais açúcar. Criado o hábito, a Dona Cafeteira abriu um próspero negócio. Por dia, no início, foram solicitadas 8 xícaras de café fresco. Na segunda semana, já eram contabilizadas em média 15 xícaras por dia. Um sucesso. Não se falava em outra coisa. Era café pra lá, café pra cá e um ou outro copo d'água para aliviar a sede pós cafeína. Ela, que com quase metade a menos da estatura do Sr. Gelágua, desbancara facilmente o seu reinado absoluto e até então ininterrupto.
A tristeza inicial do Sr. Gê foi transformada numa estratégia colossal: reuniu forças de sabe-se-lá-onde e contra-atacou. Não pelo bem geral da freguesia, mas pelo puro e honesto desejo de vingança. E assim o fez. Em vez de produzir flocos de neve frescos e misturá-los à água, passou a cuspir fogo na fonte. Sonhava que, dessa maneira, pudesse quem sabe atrair o interesse do pó de café e a partir de então produzir xícaras em quantidades industriais, visto que a estatura e o capacete seriam ótimos diferenciais na produção em larga escala. Imaginava o dia em que todos perceberiam o seu talento natural para fabricar xícaras de café deliciosas. Não funcionou. A freguesia ficou revoltada, ameaçaram um boicote ao Sr. Cabeça de Galão e aos poucos começaram a procurar uma velha conhecida revestida de um amarelo pastel e com pés de prata. A geladeira vintage, moradora da rua da frente e com capacidade de resfriamento um tanto quanto atrasada. Resolveu, então, que voltaria aos poucos à sua função inicial e acomodaria-se aos novos tempos, tal qual a sua prima VHS assistiu conformada o nascimento de um tal DVD, o que necessariamente não significou o fim da família das fitas. Havia esperança, sempre há.
Sem cartas na manga ou novas chances de sucesso, o nosso amigo em questão refletiu a respeito de toda a situação e deparou-se com algo fatal e um tanto óbvio. Permanecer onde estamos, fazendo aquilo que sabemos e com dedicação total a você - já dizia a sua loja-berçário- é fundamental para que o sucesso seja algo natural e recompensador. Nada de farsas, mentiras ou jogo sujo. À César o que é de César, à cafeteira o que é da cafeteira.
E ao Sr. Gelágua Cabeça de Galão, bem, todo os louros correspondentes ao morador mais alto do balcão.
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