
O filme do Jean Charles, vivido por Selton Melo, é realmente maravilhoso. Vou deixar de lado todas as questões que competem aos profissionais gabaritados analisar e vou chamar a atenção para um lado nem tão evidente mas que, para mim, foi muito pertinente na maneira "não pesada" com que o filme foi dirigido. As diferenças e sobretudo as semelhanças que unem e separam os brasileiros do resto do mundo. É mesmo impressionante o quanto que o nosso olhar úmido, nosso calor, nossa proximidade e por que não, nossa displicência, por vezes desleixo, em acreditar tanto e tão pouco na vida, nos colocam numa posição privilegiada. Nos motivamos, sonhamos com corpo e alma, nos envolvemos, ou também não é nada disso, tudo são generalizações e encontrar um ponto médio em algo tão plural como o brasileiro é uma tarefa injusta. Mas é que ali, naquele furacão cinza, frio e sisudo da atmosfera londrina, não se respira outra coisa além de distância. Distância do país de origem, distância entre as zonas centrais e periféricas, distância dos abraços, distância entre as pessoas que estão ali, bem perto. A ignorância, a falta de informação ou sei lá, o trajeto natural das coisas desenrolam o fim de um sonho de maneira tão brutal e injusta que fica difícil de acreditar no que aconteceu de verdade naquele metrô. O que ficou, ficou de maneira positiva e reanimadora, talvez tenha sido a naturalidade com que também a vida se reinventa, recomeça e transforma tristezas e tragédias em algo bom, proveitoso e necessário. Levantar o nosso nariz brasileiro e nossa alma latina nos faz perceber que, dentro de contextos como aquele, a nossa humanidade e nossa entrega absoluta é realmente a melhor maneira de viver as coisas e de nos diferenciarmos dos indiferentes. Cafonas? Românticos? Fanfarrões? Sim, podemos ser. Mas somos de verdade. Sonhadores, amigos, felizes, inteiros. Largos nos gestos, generosos na oportunidade e na força, poxa vida, honestos mesmo. O filme fala disso, um tanto quanto em suspensão no ar, porém ali está, de maneira muito orgânica e natural, como deve ser. Percebi que Jean Charles não foi pela metade e não ousou desistir do que queria, se é que existia um objetivo. Para Jean, o caminho já era por demais prazeroso. Tinha o mundo e tinha amigos, bem ali, no sofá da sala. Um apartamento pequeno, uma mala de ferramentas, tudo em alguns poucos metros quadrados. Metros quadrados inteiros. Não pela metade, como uma fatia de pizza dura servida nos quarteirões. Não pela metade, como o salário compartilhado no fim de cada mês com a família no Brasil. Não pela metade, como uma polícia chamada Scotland Yard.
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